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Sociopsicologia
Crise do capital e psicologia
De que maneira o sujeito é afetado pela angústia coletiva enfatizada pelas relações de trabalho e distribuição de riquezas e como o campo da psi pode ajudar neste momento

Por Denise Deschamps e Eduardo J. S. Honorato

Denise Deschamps é psicóloga com formação em Psicanálise, Socioanálise e Clínica Infantil - IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos - "Ateliê de Emoções" - Psicólogos Associados; supervisora clínica em Psicanálise. Atua em consultório particular, no Rio de Janeiro.

Eduardo J. S. Honorato é graduado pela Ulbra-Manaus. É psicólogo Perito Examinador de Trânsito (UFSC) e Psicanalista. Atua em consultório particular em Manaus. Cursa especializações em Saúde Pública (UFSC) e Docência Superior (UGF). Contatos: http://eduhonorato.wordpress.com/ ou eduhonorato@ hotmail.com

O que é a "crise" que tantos falam atualmente? Este vocábulo adentrou a vida dos brasileiros nos últimos meses e, consequentemente, os nossos consultórios e locais de atuação profissional. Teria a Psicologia algo a dizer sobre o que se pensa atualmente em relação à crise do capital que agita nossa "aldeia global"? Fomos instigados por essa pergunta e ao analisarmos a questão, verificamos que há inúmeras perspectivas sob as quais a Psicologia teria como abordá-la. Escolhemos então uma, dentre várias outras, que poderiam ser construídas.

O mundo se agita preparando-se para o caos econômico, fatores estatísticos que aos olhos da prática da Psicologia ganharão contornos de angústia individual ou dos grupos. Os números caem sobre cabeças que na relação com eles produzem felicidade ou angústia. Como Freud já havia dito, enfatizam-se as tarefas humanas que serão sempre uma das nossas maiores fontes de gratificação ou sofrimento: o amor e o trabalho.

No efêmero nomeado por alguns teóricos como pós-modernidade, naquilo em que hoje o "ser" se amarra ao "ter", aos símbolos de status e cidadania que se constroem pelo prestígio social, o pertencer a essa ou àquela classe, nos perguntamos: como sobreviver à angústia de aniquilamento ante ao mundo real que impõe hoje restrições ao projeto de vida de uma grande maioria? E como pensar isso em um país como o Brasil, onde a distribuição de renda é uma das mais injustas?

Parece que o "tubarão" chamado "acumulação de bens" nos ameaça de várias frentes. Seria a tal crise cíclica do capital já descrita por Karl Marx e Engels1? Estariam os mais aptos devoradores incorporando os menores investidores financeiros do planeta? O quanto disso nos tem sido propagado em concepções que adentram nosso imaginário, em nosso cotidiano? Fazer perguntas simples como essas poderão nos dar a dimensão do que tem a Psicologia a dizer sobre tudo isso.

Além de causar problemas financeiros a crise mundial traz sintomas mentais como ansiedade, estresse e pânico ante à possibilidade de perder o emprego

Se você sente angústia e depressão, quem sabe procurar medicamento antidepressivo não seja o melhor caminho?

Pensar o mundo em que se vive, trabalha e ama pode ser um começo de mudanças possíveis. Para Karl Marx2, "o que é exato para os seres humanos com seu trabalho, é exato também para os seres humanos entre si".

CONSTRUÇÃO DE ALICERCES

Entre capacitar o homem para a linha de produção e pensá-lo como construtor de seu meio, a Psicologia precisará, cada vez mais, problematizar sua prática e compor construções teóricas emprestando elementos de outras áreas de estudos. Tratará ao mesmo tempo o homem em seu meio ambiente cultural e dos instituintes dessa cultura. Do que é instituído como algo de aquisição de melhoria de vida e que se institui como modelo repressivo, causa dor, portanto, do adoecimento desse sujeito que forma e é formado pelo mundo em que atua.

"A PSICOLOGIA PRECISARÁ COMPOR CONSTRUÇÕES TEÓRICAS EMPRESTANDO ELEMENTOS DE OUTRAS ÁREAS DE ESTUDOS"

Muitas foram as escolas em Psicologia que tentaram entender o homem atrelado ao modo de produção, ligado ao que permeia seu mundo econômico, atravessado e sustentado por questões de ideologia. Pensamos esse homem como um ser social desde o momento de sua concepção. Antes mesmo de nascer, traz já marcado todo um imaginário que lhe impõe um lugar que é também coletivo. Nascer, viver e morrer, caminho singular de cada sujeito, que implica na construção de relações de vínculo com seu tempo econômico, político e ideológico.

Hoje a ciência que estuda a subjetividade se vê às voltas com aquilo que R. D. Laing já nomeava de "fatos da vida", como algo que fala de uma subjetividade que pode ser encarada como construção do sujeito ou mesmo de toda malha que entrelaça o coletivo.

"Há cientistas incapazes de conceber que com seus métodos excluem o tipo de informação que não desejam, a fim de destacar o tipo de informação que desejam"3. Essa afirmação de Laing traz para nossa análise o fato de querer problematizar os instrumentos com os quais a Psicologia trabalhará seu objeto de estudo - o psiquismo - diante do momento atual, a crise contemporânea que atravessa um momento delicado relacionado com a distribuição de riquezas no mundo.

Quantos brasileiros não se sentiram amedrontados, ameaçados ou receosos ante a "crise" tão propagada pela imprensa nacional e mundial? Quantas vezes o tema "crise" adentrou em nossos consultórios desde setembro de 2008? Em um país com memória recente de inflação, períodos longos de recessão e planos econômicos mirabolantes, a "crise" atual traz em seu bojo questões não só atuais, mas fantasmas deixados por episódios anteriores ainda mais "elaborados" (ou digeridos).

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