DOSSIÊ Esquizofrenia Transtorno afeta 1% da população mundial, o que significa 1 milhão de portadores que enfrentam o preconceito e a falta de informação. Este dossiê apresenta a realidade das pessoas que vivem com esse quadro psiquiátrico
Frente a frente com a Informação |

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A pintura “Campo de Trigo com Corvos”
foi concluída nas últimas semanas
de vida de Van Gogh. Boatos apontam
esta como sendo sua última obra,
ou até mesmo que ele tenha
se
matado durante sua criação |
Ary Gadelha é membro do Programa de Esquizofrenia (PROESQ) - Unifesp
Rodrigo A. Bressan é PhD pela London University. É coordenador do Programa de Esquizofrenia (PROESQ) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Laboratório Interdisciplinar de Neurociências Clínicas (LiNC/ Unifesp) |
A esquizofrenia é a condição psiquiátrica mais associada ao estereótipo de loucura.
Isso se deve em parte aos sintomas apresentados por seus portadores e muito à mitificação e falta de conhecimento das pessoas sobre o transtorno |
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Batalha de mestres
Houve uma grande revolução no mundo da Psica nálise quando Emil Kraepelin emergiu com suas teorias. Ele bateu de frente com Sigmund Freud, ao afirmar que doenças psiquiá tricas são causadas principalmente por desordens genéticas e biológicas. O pai da Psicanálise afirmava que, na verdade, elas se tra tavam de doenças oriundas de fatores psicológicos. |
Ainda há muito desconhecimento em relação à esquizofrenia. Aproximadamente 1% da população mundial sofre do transtorno ao longo da vida. No Brasil, significa algo em torno de 1 milhão de portadores. Apesar dos avanços da ciência, a esquizofrenia é uma doença crônica. Uma vez diagnosticada, o portador, os familiares e os amigos deverão aprender a conviver com ela, pois a medicina, até o momento, não encontrou a cura definitiva. Portanto, seguir o tratamento é fundamental para evitar novas crises e impedir o agravamento da doença. Dentro da nova realidade, se munir de informações, aceitar o transtorno e receber apoio da família ajuda a vencer os obstáculos na reconstrução de um cotidiano melhor.
Originalmente, a esquizofrenia foi descrita pelo psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1856-1926), no final do século XIX. Era considerada uma forma de demência que acometia os indivíduos precocemente, por conta disso, era chamada demência precoce. Os portadores teriam uma degeneração progressiva de seu quadro até perderem totalmente a sanidade. A partir do início do século XX, quando o psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857-1939) deu o nome de esquizofrenia ao antigo conceito de “demência precoce”, a doença passou a ter uma conotação um pouco menos desesperadora. Em vez de serem considerados portadores de demência ou doença degenerativa de curso irreversível, os indivíduos que sofriam de esquizofrenia passaram a ser vistos como portadores com uma condição grave, mas que poderia ter boa evolução em alguns casos.
Sintomas Positivos
Os delírios e as alucinações são manifestações de uma atividade cerebral diferenciada, que terminam por criar algo novo, diferente do modo habitual de percebermos as coisas, e por isso são chamados sintomas positivos ou psicóticos. A psicose seria um pensamento (delírio) ou uma percepção (alucinação) que foge à compreensão habitual. São estranhos às outras pessoas por serem incompreensíveis em sua origem e inquestionáveis. Um exemplo seria um indivíduo que garante estar sendo vítima de um complô. Numa espécie de redemoinho mental, todas as ideias giram em torno da certeza de estar sendo perseguido e se tornam uma obsessão.
"UMA DIFERENÇA FUNDAMENTAL DO DELÍRIO QUE APARECE NA ESQUIZOFRENIA ESTÁ NA INTENSIDADE E NA CONVICÇÃO DO PORTADOR" |
Isso demonstra uma alteração grave que dificulta a pessoa de lidar com a percepção do real (juízo de realidade) e cuja intensidade é tamanha a ponto de fazer convergir o todo da vida mental para si. É o que chamamos de delírio. Não se deve confundir o delírio com mero falseamento de conceito, estamos falando de algo muito mais abrangente. Os delírios podem ter vários temas. O mais comum são os de conteúdo persecutório, nos quais as pessoas se sentem perseguidas (veja quadro Delírio x Imaginação).
O outro elemento dos sintomas positivos são as alucinações. Nelas, a pessoa tem percepções sensoriais, mas sem a presença do objeto. É comum, por exemplo, que pessoas com esquizofrenia ouçam vozes ou sons dirigidos somente a elas. Em geral, essas vozes estão relacionadas ao tema do delírio e se referem a comandos, ordens ou críticas dirigidas à própria pessoa. É importante destacar que a alucinação é semelhante em tudo à percepção real do objeto que se origina e para a pessoa acometida não há como distingui-la da fala real de uma pessoa ou da imagem de um objeto presente.
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| As alucinações podem ser um dos sintomas de quem possuiu o quadro de esquizofrenia. Para o portador, é muito difícil distingui-las do real |
Outra característica comum, principalmente nas fases agudas da doença, é a desorganização do pensamento; o discurso da pessoa perde o sentido, tornando-se entrecortado e confuso. O próprio comportamento se desorganiza, os gestos são estranhos, desprovidos de propósito. A desorganização pode ser considerada parte dos sintomas positivos ou como um grupo isolado de sintomas, dependendo do autor.
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