DOSSIÊ Esquizofrenia Transtorno afeta 1% da população mundial, o que significa 1 milhão de portadores que enfrentam o preconceito e a falta de informação. Este dossiê apresenta a realidade das pessoas que vivem com esse quadro psiquiátrico
Sintomas Negativos
Entre os principais sintomas negativos está a dificuldade em conviver em ambientes sociais levando a um retraimento social e até mesmo a um total isolamento. Os portadores podem apresentar uma diminuição do afeto, dando a impressão de que não simpatizam com as situações em que estão envolvidos (embotamento afetivo). Alguns portadores se fecham completamente, como se nenhum acontecimento ou evento externo os afetasse, não reagem. Ocorre com frequência uma diminuição da vontade (abulia) e empobrecimento do pensamento. No caso da abulia, falta disposição para fazer qualquer coisa, até as mais corriqueiras e simples. Em casos mais extremos, a pessoa se acomoda, passando o dia todo inerte, olhando para o nada. Muitas vezes os parentes classificam esse comportamento como preguiça, sobretudo quando se trata de jovens, mas é preciso ficar atento para o fato de que, na maioria das vezes, esse é um sintoma da própria doença.
É importante que familiares, amigos e professores, ao observarem comportamentos destoantes, principalmente em adolescentes, não os considerem como “típico da idade” ou uma “questão de personalidade”, mas busquem mais informações e eventualmente procurem auxílio médico para excluir um problema mais grave.
Já está comprovado que quanto antes se inicia o tratamento melhor se torna o controle da doença.
Uma diferença fundamental do delírio que aparece na esquizofrenia está na intensidade e na convicção de quem o possui. São ideias tão intensas que, por mais que você argumente e mesmo comprove que não são verdadeiras, a pessoa não consegue se convencer. A crença nessas ideias se sobrepõe a todos os outros aspectos da vida da pessoa. No caso da crença religiosa, por exemplo, ela pode ser considerada um sintoma de esquizofrenia somente quando sai do contexto religioso e quando fica bizarra em relação ao contexto cultural. Por exemplo: se o indivíduo pertence a uma cultura indígena e acredita nas entidades da mata e em sua relação pessoal com esses espíritos, isso está de acordo com seu contexto religioso e cultural. Mas se, de uma hora para outra, uma pessoa de outro contexto cultural, que more em um grande centro urbano e tenha uma rotina típica desse modo de vida, por exemplo, começa a se dizer controlada por espíritos da mata que ordenam que ela ande nua, isso, sim, pode ser encarado como um delírio de cunho religioso. É preciso diferenciar as crenças compartilhadas por uma sociedade ou comunidade, e que possuem uma função cultural, daquelas discrepantes.
Outro fator importante para decidir até que ponto uma crença pode se tratar de um delírio esquizofrênico é o fato de que, muitas vezes, a pessoa com sintomas paranoides não se limita a acreditar, mas toma atitudes incoerentes daquilo que se espera em seu meio social e cultural. Agora, sem dúvida, não é possível diagnosticar a esquizofrenia simplesmente a partir dessas ideias, seria até mesmo leviano, porque muitas vezes a diferença entre um delírio e uma crença socialmente compartilhada é sutil. Por isso é importante que se considere o conjunto dos sintomas e, em especial, a história do paciente e como eles evoluem |
Predisposição
Hoje se sabe que a esquizofrenia é uma condição fortemente associada a fatores genéticos. Enquanto a prevalência na população geral gira em torno de 1%, entre parentes de primeiro grau de um portador esse número fica entre 8% a 10% e em gêmeos idênticos é estimado em 50%. Esses dados demonstram claramente um aumento de risco relacionado a uma maior similaridade genética. As causas podem envolver outros fatores e a carga genética não é suficiente para explicar totalmente a doença. O caso dos gêmeos serve como exemplo. Se eles têm uma genética completamente igual, como justificar que somente 50% desenvolvam a doença?
A melhor resposta disponível até agora é de que fatores ambientais estejam também implicados no desenvolvimento da doença. O ambiente familiar, o tipo de educação, viver em centros urbanos, migração, complicações obstétricas, a exposição à violência e o estresse estão entre os fatores que têm relação com a manifestação da doença. Outro fator importante é o elevado número de pesquisas que comprova a forte influência do uso de drogas para o desenvolvimento da esquizofrenia.
Há pesquisas que evidenciam a ligação entre o uso da maconha, de anfetaminas, alucinógenos, cocaína e do álcool à manifestação da esquizofrenia. Isso não quer dizer que essas drogas causem a doença, mas, sim, que pessoas com predisposição a adquirirem-na, se fizerem uso dessas substâncias, estarão mais sujeitas à manifestação e à ocorrência de episódios agudos de esquizofrenia. O uso dessas substâncias pode ter o papel de potencializar ou de desencadear a doença que, pode-se dizer, estava latente.
Características demográficas |
A prevalência ao longo da vida, estimativa de casos prováveis na população, é cerca de 1%. Embora possa parecer pouco, essa prevalência é considerada alta quando se leva em conta a população mundial como um todo e, principalmente, a gravidade do problema. Como a esquizofrenia afeta pessoas na faixa de 20 a 30 anos, ela gera um impacto social enorme, porque limita ou mesmo impede a atuação dessas pessoas quando elas se encontram no auge de sua capacidade física e mental. Para a família, isso representa impacto emocional muito grande e, muitas vezes, reflete no financeiro, pela dependência econômica. Há um número discretamente maior de homens acometidos em relação ao de mulheres. |
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| A dificuldade em conviver em sociedade, leva o portador de esquizofrenia a se isolar |
Evolução
A esquizofrenia é rara na infância e nas pessoas de mais idade, embora, é claro, aconteça. O mais frequente é que ela se manifeste na terceira década de vida, entre os 20 e 30 anos. (veja quadro complementar Características demográficas). Atualmente, sabe-se que antes do início da doença propriamente dita, marcada pela presença de seus sintomas típicos, os pacientes normalmente já apresentam alterações do comportamento. Nessa fase, o quadro mais comum é do adolescente que fica progressivamente mais retraído, se afasta dos amigos, começa a ir mal na escola. Além disso, começa a falar coisas estranhas, não exatamente delirantes, mas difíceis de compreender, como conceitos religiosos fora de contexto e preocupação com extraterrestres. A presença desses comportamentos, sobretudo se associados à história familiar de esquizofrenia e/ou exposição a fatores de risco ambientais, implicam em tendência para desenvolver a doença. Esse quadro se chama pródromo, ou estado mental de risco para esquizofrenia, e tem sido alvo de estudos em todo o mundo pela possibilidade cada vez mais real de prevenir a doença. No Brasil, há o Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo que tem como objetivo organizar projetos de assistência e pesquisa nesse tema.
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