Sexo também é saúde Este conceito, que já foi inovador, hoje é essência. Ele vem sendo proposto há anos, incansavelmente, por esta médica, professora de Psiquiatria e coordenadora geral do Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo
Por Rose Campos Fotos: Fabio Hurpia
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Rose Campos é jornalista e escreve para esta publicação |
Seu nome é um dos mais respeitados no Brasil, no âmbito do conhecimento da sexualidade humana. Há cerca de três décadas, quando a então recente conquista da liberdade sexual era apenas o outro lado da moeda do tabu que o sexo ainda representava, Carmita Abdo dava início aos seus estudos neste campo. Coletou dados inéditos e revelou finalmente ao País como é a sexualidade do brasileiro. Foi uma espécie de revolução. Deixamos de nos basear apenas em pesquisas internacionais, quase sempre representativas de culturas muito diversas de nossa própria, para passar a lidar com dados de realidade. Isso abriu uma gama enorme de possibilidades à prática dos profissionais de saúde das mais variadas especialidades.
Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade para a revista Psique Ciência & Vida, a médica conta como foi essa trajetória e quais os ganhos que representa para a saúde e nosso bem-estar como um todo.
Psique - Você iniciou no País um trabalho pioneiro na área de sexualidade. Quando e como foi esse começo?
Carmita Abdo - O trabalho começou realmente nos idos de 1976, quando eu ainda era R2 (fazia o segundo ano de residência médica em Psiquiatria). Fui convidada a atender os alunos da Universidade de São Paulo, por meio da Coordenadoria de Saúde e Assistência Social (COSEAS/USP). Minha função seria a assistência aos alunos em questões de ordem psiquiátrica e psicoterapêutica. Era uma época em que a pílula anticoncepcional já estava disponível há alguns anos e a Aids ainda não existia. Então, vivíamos um contexto de grande liberdade sexual sem que, no entanto, essa liberalidade representasse perigo iminente de vida para quem a usufruía. Talvez por isso mesmo, aquele era um ambiente de experimentações, em que começaram a surgir muitas dúvidas dos estudantes focadas no tema da sexualidade. Passei a documentar aquelas informações descompromissadamente, até perceber que tinha em mãos um interessante arquivo que, embora feito de modo aleatório, reunia uma riqueza de dados, que foram aprimorados durante o meu curso de pós-graduação. Tanto que minha tese de doutorado, intitulada de Aspectos da Sexualidade de uma População Universitária, contou com mais de 500 universitários pesquisados. Logicamente, os casos incluídos eram os de estudantes que haviam dado permissão para tal. A partir daí me interessou investigar também a realidade sexual de outras populações, além da universitária.
Psique - O Projeto Sexualidade (ProSex), na Faculdade de Medicina da USP, que continua atendendo a população geral com dúvidas ou dificuldades nesta área, deve ter cumprido este objetivo. Como foi sua criação?
Carmita - Era início dos anos 1990 e àquela altura eu já estava convencida da importância dos "Aspectos da Sexualidade Humana", uma disciplina de pós-graduação que eu ministrava na Faculdade de Medicina e que vinha atraindo muitos pósgraduandos da área de saúde. Além de médicos de várias especialidades, interessavam-se também profissionais de Enfermagem, Psicologia, Assistência Social, dentre outros. E percebi que não existia em uma esfera mais formal, tanto na área de Medicina quanto na de Psicologia, um núcleo acadêmico que se dedicasse exclusivamente a esse tema. Ou seja, percebi uma lacuna a ser preenchida. Criei, então, o Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ele trouxe essa possibilidade para o ensino e também para a pesquisa e a assistência, bem como trouxe serviços voltados à comunidade, sempre trabalhando com sexualidade.
" SEMPRE QUE PRECISÁVAMOS, TÍNHAMOS DE RECORRER A ESTUDOS DE OUTROS PAÍSES, UTILIZANDO NÚMEROS DE UMA
CULTURA QUE NÃO É A NOSSA " |
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Psique - Qual foi o avanço que o ProSex representou no campo da pesquisa em sexualidade para o País?
Carmita - Acabamos formando uma equipe de trabalho bastante empenhada e ousada. No início, o grupo era pequeno, com apenas três ou quatro profissionais. Hoje somos cerca de 60, entre médicos, residentes, psicólogos, estudantes e estagiários. Começamos na época, em 1993, com um único ambulatório semanal. Ainda assim, logo no primeiro mês chegamos a receber, e me lembro bem, mais de cem solicitações de consultas. Este foi um número bastante expressivo, sinal de já existir uma demanda reprimida para este tipo de assistência. A repercussão do nosso trabalho foi grande e, em pouco tempo, passei a ser convidada para dar aulas para a graduação e a pós-graduação e não só em Psiquiatria, mas também nas especialidades de Ginecologia, Urologia e Clínica Médica. Nosso grupo se fortaleceu do ponto de vista do ensino e, em alguns anos, pude formar os primeiros pós-graduados, o que reverteu em novas teses. Com isso, também a pesquisa começava a constituir uma área de relevância para minha carreira. Coordenei estudos populacionais em sexualidade, pioneiros no País. Considero este trabalho fundamental, porque até então, sempre que precisávamos nos referir a dados epidemiológicos em Medicina Sexual, tínhamos de recorrer a estudos de outros países, principalmente norte-americanos e ingleses, utilizando números de uma cultura que não é a nossa e, portanto, longe de representar nossas peculiaridades e nosso perfil sexual.Até hoje nós já realizamos seis grandes estudos populacionais, cada qual com um enfoque específico. Acabamos criando, além de cursos de pós-graduação e de uma disciplina para a graduação em Medicina, o curso de especialização que recebe profissionais vindos de todo o País, os quais têm a possibilidade de fazer essa formação aos sábados e domingos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Hoje ministramos dois cursos simultâneos, com cerca de 50 participantes em cada um deles. São profissionais das diversas áreas de saúde. Penso que, com meus livros e artigos, inclusive publicações internacionais, contribuo para solidificar o conhecimento nesse campo e representar o Brasil no cenário da Medicina Sexual e da Sexologia. Atualmente faço parte dos Comitês Educacional e Científico da International Society of Sexual Medicine, o que ajuda a pôr em evidência o trabalho que vem sendo realizado nesse âmbito no Brasil, bem como a trazer conhecimento up-to-date para nossos alunos e interessados.
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