editora Escala
 

Filosofia  
 
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

Atualidade
A Psi biológica
A questão tem sido principalmente problematizada na Ciência, em virtude do surgimento e desenvolvimento do darwinismo, embora o homem já a discutisse muito antes, tanto no âmbito da Filosofia quanto no da própria Ciência

Por Daniel Hamer Roizman

Daniel Hamer Roizman é psicólogo clínico, graduado pela Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestrando em Psicologia Social pela mesma Instituição.

Há inúmeras teorizações em torno da origem e especificidade do sapiens, cuja discussão já fora realizada pelo biólogo inglês Charles Darwin, na célebre A origem das espécies e também em A expressão das emoções no homem e nos animais. Nesta última, seu intuito era estabelecer um elo entre o humano e as outras espécies, defendendo a ideia de uma continuidade. Ou seja, o próprio Darwin já se perguntava a respeito dos fatores comuns entre o ser humano e os animais, tanto é que sua proposta teórica (ponto fundamental da polêmica) é situar o homem como um animal, produto de um processo evolutivo caracterizado por mutações aleatórias e pela seleção natural .

O pensamento darwiniano foi tão impactante que o senso comum incorporou a palavra instinto (fundamentalmente ligada ao aspecto biológico) para descrever e explicar situações amplamente diversas do comportamento humano. Frequentemente, o uso se estende desde a esfera reprodutiva (instinto sexual e instinto materno), passa pela adaptativa (instinto de sobrevivência, de domínio, agressivo e assassino), indo até situações grupais peculiares (instinto gregário).

Atualmente, os avanços da genética e da biologia molecular permitem traçar linhas de pesquisa que apontam para os aspectos filogenéticos dos seres vivos e, assim, traçam uma continuidade entre as diferentes espécies e o homem. Hoje, é sabido que os genomas do homem e do chimpanzé possuem diferenças muito pequenas. Nesse sentido, a antiga discussão desenvolvida por Darwin a respeito do evolucionismo tem sido retomada, já que agora é respaldada pelo avanço na compreensão do DNA.

A Psiquiatria biológica configura quadros psicopatológicos, como a esquizofrenia, em fatores hereditários, ignorando os fatores ambientais e sociais

Como consequência das novas descobertas, surgiram certas alegações científicas a respeito da condição humana. O recente modelo amplamente difundido na mídia promove a genética como fundamento da subjetividade e da diversidade de condutas. Referimos-nos aqui ao modelo da Psiquiatria biológica e das neurociências (veja quadro Psiquiatria biológica). Desse modo, capacidades tidas como superiores, a exemplo da atenção, volição, memória e percepção, bem como quadros psicopatológicos diversos, como a esquizofrenia, o transtorno obsessivo-compulsivo, a depressão, o transtorno bipolar e outros tantos quadros psicopatológicos ou mesmo patológicos, agora são relegados a meros subprodutos da hereditariedade. Se há alguma influência do ambiente, esta é tida como coadjuvante, na medida em que o meio serve apenas como fator disparador do quadro clínico.

As neurociências advogam que o cérebro possui papel praticamente autônomo quanto às relações subjetivas, pois é principalmente orientado por determinantes genéticos. Logo, a percepção da realidade é mediada pelas características psicológicas adquiridas aleatoriamente no percurso da evolução (como o “temperamento” e o “caráter”), sendo praticamente irrelevante a história individual, bem como o sentido que permeia o pensamento e a ação. Esse modelo apresenta a mente e a cultura como fenômenos derivados do substrato cerebral desenvolvido.

" AS NEUROCIÊNCIAS ADVOGAM QUE O CÉREBRO POSSUI PAPEL AUTÔNOMO QUANTO ÀS RELAÇÕES SUBJETIVAS "

O modelo da genética como fator crucial para a gênese do comportamento humano culmina inevitavelmente na ideia de um determinismo (embora existam posições flexíveis a esse respeito). Isto não deixa de provocar consequências subjetivas, a exemplo da sensação de restrição de liberdade dos indivíduos por um lado, bem como a justificativa e o favorecimento para o tratamento farmacológico de outro, pois se “para uma causa orgânica é necessária uma cura orgânica”, para “cada transtorno há uma gama de medicações disponíveis.”

Contudo, mesmo seguindo uma linha biológica de pensamento, é possível contra-argumentar, devido à existência de outros raciocínios e formulações científicas que visam ao menos esclarecer a enigmática questão das relações entre natureza e cultura. Em ciência, certos modelos explicativos muitas vezes se tornam hegemônicos, mas isto não implica dizer que outras explicações menos conhecidas deixem de ter seu valor apenas por não estarem “na moda”. Assim, são alternativas de alguma forma complementares ao modelo genético (pois não permitem sua exclusividade explicativa): a teoria da neotenia (que significa manter a juventude) desenvolvida pelo anatomista holandês Louis Bolk e retomada recentemente pelo biólogo Stephen Jay Gould no livro Darwin e os grandes enigmas da vida (1992), bem como a teoria do linguista Philip Lieberman sobre a filogênese da linguagem em seu livro The biology and evolution of language (1984). Esses dois aportes permitem a inserção de outras abordagens intimamente ligadas – a linguística estrutural nascida no pensamento de Ferdinand de Saussure (1857-1913) e desenvolvida por Roman Jakobson (1896-1982), Émile Benveniste (1902-1976) entre outros, além da psicanálise lacaniana, que em parte fundamenta-se na vertente estruturalista (veja boxe Entre Lévi-Strauss e Lacan).

Pouco estudada por mais de um século, a neotenia de Bolk propunha a existência de características anatômicas fetais ou imaturas, que se estenderiam igualmente ao corpo do animal adulto, e cuja causa seria hormonal. Isto é, seriam aspectos que não se desenvolveriam nem evoluiriam com o restante do organismo, daí também ser conhecida como teoria da “fetalização” ou do “retardamento”. No ser humano, a neotenia se reconhece no desenvolvimento defasado, tardio do sistema nervoso e no tempo de gestação do feto, que é significativamente menor do que nos demais primatas. Esse maior período de tempo necessário ao desenvolvimento humano faz que o bebê necessite de mais tempo de cuidados dos pais ou de substitutos. Ao contrário dos demais primatas e de outras espécies que já possuem um “saber instintual” ou uma gama de comportamentos adaptativos rapidamente adquiridos após o nascimento, o ser humano é bastante limitado em um primeiro momento de sua vida, mas, depois disso, supera enormemente qualquer outro animal.

Psiquiatria biológica

As posições organicistas buscam a etiologia dos quadros clínicos no âmbito biológico, enquanto as posições mentalistas procuram as causas em fatores psicológicos. No campo diagnóstico, a então Psiquiatria biológica grandemente representada pelo DSM-III na década de 1970, tinha a ideia de torná-lo um manual ateórico, dando assim uma margem ampla de entendimento àqueles que se utilizavam de suas classificações. Dessa forma, as classificações se atêm à descrição de sintomas, favorecendo a função de pesquisa relativa às dezenas de sintomatologias (ou síndromes, transtornos e distúrbios) descritas em suas categorias essenciais. Ou seja, todas as categorias nesse modelo são estabelecidas a partir da observação, da reincidência e da estatística, mas não por meio de algum critério visível de cunho filosófico ou teórico sobre o que significa doença mental. A ideia de “síndrome” ou “transtorno” passa a ser o motor da análise sintomatológica descritiva do CID e do DSM, pois os portadores dos distúrbios ficam homogeneizados pelo quadro sintomático que apresentam. Exemplo: os deprimidos, os portadores de TOC, etc. Nota-se que tal modelo prescinde de explicações psicogênicas, pois abre as portas para o tratamento farmacológico bem como para medidas comportamentais de caráter adaptativo, no sentido de que o paciente possuiria um corpo e uma aprendizagem incorretos do ponto de vista da norma social e da lógica formal.

As síndromes de TOC, como mania de limpeza, por exemplo, são entendidas pela Psiquiatria biológica como fatores ambientais/biológicos, destituindo os efeitos da linguagem do ser humano

Com o modelo objetivo e descritivo do CID 9 e 10 e do DSM III e IV, a especificidade da Psiquiatria passou a ser relativizada, pois qualquer clínico geral, ou até mesmo “leigos brevemente instruídos” poderiam realizar diagnósticos alheios ou até de si mesmos. A recente popularização dos diagnósticos psiquiátricos se deve, de acordo com Aguiar, em A psiquiatria no divã: entre as ciências da vida e a medicalização da existência (2004), ao próprio funcionamento filosófico e científico de seus respectivos modelos diagnósticos. Ou seja, o da ciência positivista e empirista que se baseia no par ambiente/biologia como linha epistemológica. Permanecer fiel a essa posição é deixar de lado o impacto dos efeitos da linguagem no ser humano, pois além de retirar a metaforização (duplo sentido) de seu objeto de investigação, já que se atém ao plano da verificação objetiva ou “real”, também elimina a subjetividade (ou desejo) do cientista que está por trás da produção da própria ciência.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº 45
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
CONSULTÓRIO
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado



  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS