Nature Review Duelo entre Exatas e Humanas Neurocientista lança um projeto que reúne diversos pensadores para difundir o conhecimento científico e dizimar o dogmatismo
Por Philip Ball
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Traduções da revista Nature com exclusividade para o veículo revista no Brasil
Tradução de Nilza Laiz Nascimento da Silva
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Cinquenta anos após P. C. Snow ter proferido sua famosa conferência As duas culturas, esse assunto ainda suscita reações das mais variadas. Alguns sentem que a divisão entre as Ciências Exatas e as Ciências Humanas é tão ampla e tão inquietante quanto era em 1959; outros dizem que o mundo já a superou. Mas talvez precisemos, em vez disso, reconhecer que as divisões de hoje existem entre duas culturas bem diferentes.
No meu ponto de vista, a mais problemática dessas posições é a que distingue entre aqueles que acreditam no valor do conhecimento e do aprendizado - sejam eles artistas, cientistas, historiadores ou políticos - e aqueles que rejeitam, ou até mesmo denigrem o intelectualismo nos assuntos mundiais.
Outros, contudo, sentem que a disparidade mais séria, hoje em dia, está entre aqueles que confiam na ciência e no racionalismo iluminista, e os que são guiados por dogmas religiosos. Esse sentimento aparentemente motivou o recente lançamento do Reason Project - uma iniciativa organizada pelo neurocientista e escritor Sam Harris. Esse projeto ostenta um conselho consultivo de estrelas que inclui Richard Dawkins, Daniel Dennett, Steven Weinberg, Harry Kroto, Craig Venter e Steven Pinker, além de Salman Rushdie, Ayaan Hirsi Ali e Ian McEwan.
O objetivo desse projeto é difundir o conhecimento científico e os valores seculares na sociedade, além de "incentivar o pensamento crítico e acabar com a influência do dogmatismo, da superstição e do fanatismo em nosso mundo".
GUERRA E PAZ
É fácil concordar que o uso (ou melhor, o abuso) da religião para justificar a supressão dos direitos humanos, maustratos e assassinatos é abominável. O fato de isso ser tratado no projeto é louvável. Mas com Dawkins (autor de Deus, um delírio) e Christopher Hitchens (Deus não é grande) no conselho, torna-se inevitável suspeitar que o próprio TodoPoderoso seja o alvo principal.
Esse debate tende agora a se agrupar em dois campos. Um exemplificado pelo Reason Project, que insiste que ciência e religião são fundamentalmente incompatíveis, e que o mundo não é grande o bastante para ambas. O outro lado é ilustrado por outro projeto, também lançado recentemente, o BioLogos Foundation, criado pelo ex-líder do Projeto do Genoma Humano, Francis Collins. Segundo esse ponto de vista, ciência e religião podem e devem fazer as pazes: não há razão para elas não coexistirem. A missão do BioLogos fala de "uma cultura de guerra crescente nos EUA entre ciência e fé" e explica que a fundação BioLogos "enfatiza a compatibilidade da fé cristã com o que a ciência descobriu a respeito da origem do universo e da vida".
O BioLogos é financiado pela Fundação Templeton, que também busca identificar um denominador comum entre ciência e religião. Para os ateus militantes isso é pura acomodação conciliatória.
E é isso que o biólogo evolucionista Jerry Coyne, membro do conselho do Reason Project, lamenta em um ensaio intitulado Truckling to the faithful: A spoonful of Jesus helps Darwin go down. [algo como: "Submetendo-se aos fiéis: uma colherada de Jesus ajuda a engolir Darwin"]. Coyne acusa a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (U.S. National Academy of Sciences) e especialmente o seu Centro Nacional de Educação Científica (National Center for Science Education) de tentar agradar às massas religiosas.
PARAÍSO DOS ATEUS
O que o Reason Project tem a seu favor é o rigor filosófico. Isso pode ser também a sua falha, porque parece improvável que ele se aventure além daqueles limites. Como a maioria das ideias utópicas, o absolutismo ateísta funciona, desde que ignore como as pessoas são e permaneça num vácuo cultural e histórico. Clareza lógica e autoconsistência, infelizmente, não são suficientes.
"NÃO É UMA QUESTÃO DE CIÊNCIA VERSUS FÉ, MAS DE REJEIÇÃO ÀS IDEIAS CIENTÍFICAS QUE DESAFIAM ESTRUTURAS DE PODER"
Fico feliz com o fato de as pessoas se engajarem em expor o fanatismo e a opressão. Se alguns escolhem se concentrar em exemplos em que essas coisas têm motivação religiosa - bom, por que não? Mas parece importante reconhecer que o suposto conflito entre ciência e fé não é, na verdade, um problema assim tão grande.
O que é um grande problema é a força relativamente recente da oposição fundamentalista a aspectos específicos do pensamento científico, o que faz dos Estados Unidos e da Turquia os dois países ocidentais com a menor proporção de população que acredita no evolucionismo.
Em outras palavras, essa não é uma questão de ciência versus fé, mas de rejeição às ideias científicas que desafiam estruturas de poder. Afinal, o fundamentalismo raramente se opõe à tecnologia em si, e, na verdade, muitas vezes está, de um modo perturbador, ávido por adquiri-la. A intenção não é minimizar o problema, mas reconhecê-lo pelo que ele é e assim evitar falsas dicotomias e talvez tornar mais fácil encontrar soluções.
Portanto, pouco se ganha ao tentar derrubar o templo - os falsos pregadores é que são a ameaça. Se conseguirmos reconhecer que a religião, como qualquer ideologia, é um constructo social - com benefícios, perigos, invenções arbitrárias e, acima de tudo, raízes na natureza humana - então podemos abandonar muita discussão vazia e voltar às maravilhas terrenas da bancada do laboratório.
MONTAGEM COM OBRAS E ESTUDOS DO PINTOR LEONARDO DA VINCI
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