Literatura no divã Fios (des) conectados A tênue linha que liga os contos soltos do livro A cidade ilhada nos mostra a importância da linguagem para a reflexão, Filosofia e, sobretudo, a condição humana
Por Paula Mantovani
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Paula Mantovani é psicóloga e consultora editorial
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A linguagem nos inclui numa ordem humana. Ela não só permite a comunicação como é justamente o que nos insere no universo da cultura, permitindo a troca de experiências, suas elaborações e transmissão de geração em geração. O que nos leva a proposição de que a cultura é linguagem.
A transmissão institui um rastro que se torna um lugar para a circulação de novas aquisições, que se dá a ver por meio de um processo de compartilhamento. São articulações que visam a um desdobramento do que se processa na via de uma produção individual, com suas aventuras e desventuras para outra ordem, ou seja, certa aquisição coletiva. Segundo Freud, o individual está mutuamente constituído no coletivo.
Aliás, se retrocedermos o pensamento e localizarmos algumas construções humanas como foram à transmissão engajada pelas narrações dos poetas - antes mesmo da criação do alfabeto na Grécia antiga - poderemos demarcar movimentos que convergiram nos textos, na transmissão escrita.
Uma mudança significativa, na qual o orador, o poeta, deixou de ser uma via imprescindível. O texto passa a trazer em si um lugar de "escutatória", termo que utilizo em homenagem ao amigo e escritor Rubem Alves.
Assim se dá o universo literário, na via de expansão das diversas formas existentes de transmissão. Por meio da "escutatória", daquilo que cada um pôde ouvir de suas experiências em nível subjetivo, a possibilidade de criar a cada conto uma nova aquisição simbólica.
Marca fundamental do traço de espírito de um escritor. Por meio de sua marca literária, ou seja, das aquisições simbólicas das quais consegue dialogar com os mais diferentes universos, o escritor não só pode se despir para revisitar seus conceitos, valores e atitudes, como gerar novas ações de pensamento. É dialogando e participando ativamente em suas (des) construções que o escritor refaz seus votos e investe em novos mundos.
Por que necessariamente o despir está como condição para revisitar algumas marcas na dialética entre o escritor e sua autoria? Para poder entrar em contato íntimo com vivências que abrangem muitas outras formas de existir, pensar, investir e criar o mundo, o escritor torna aquilo que mais é cotidiano e tão já naturalizado que se torna invisível, numa motivação para um (re) pensar, para um ressurgimento e (re) encantamento das palavras.
"A filosofia é um dos instrumentos utilizados pelo escritor. É o elemento invisível em seus processos de elaboração"
Para a literatura, o que é transmitido de geração em geração não podemos tomar como sendo o mundo. O estrangeiro é algo sempre íntimo, por justamente carregar o traço fundamental: ao se confrontar com o mais estrangeiro, o humano se aproxima do que lhe é mais íntimo.
Assim foi meu encontro com o estilo do escritor amazonense Milton Hatoum, convidado da Festa Literária Internacional de Parati (Flip) deste ano. Pensar em seu estilo criou uma única conversão de pensamento em mim que pode ser exprimida pelo verbo expandir. A cidade ilhada inaugura seu primeiro livro de contos. Contém 14 contos, sendo seis inéditos e os outros, embora já publicados anteriormente, foram reescritos para o livro.
Em , o leitor talvez possa ser acompanhado pelo verbo expandir, que acolhe numa abertura de olhar, em um olhar demorado, o magnetismo de um autor que viaja por uma infinidade de lugares.
Há nas entrelinhas das narrações certo desdobramento das questões de um conto para o outro sem cair numa continuidade, mas na expansão dessas questões contidas numa pluralidade de lugares. Ao serem relatadas, faladas de um lugar aparentemente longe, esse lugar é ao mesmo tempo tão próximo, tão perto das notas que compõem alguns dos temas humanos, como amor, traição, amizade, espera e velhice, por exemplo.
O que impressiona em Milton Hatoum é sua forma estilística fiel a engendrar elementos que fazem parte da condição humana de uma forma encantadora. Dizendo de outra forma, seus contos não estão no campo de dominar e até subjugar a realidade, mas sim, carregados de certa magia, ponto indiscutível de uma verdadeira obra de arte.
Uma escrita que carrega a arte de aproximação da vida e da natureza num nível de virtuosidade que marca o reconhecimento de uma escrita construída, que diz de uma verdade transformada em linguagem. A cada leitura uma alegria de espírito nos invade.
A Filosofia é um dos instrumentos utilizados pelo escritor. É o elemento invisível em seus processos de elaboração: há sempre uma reflexão que interroga o sentir, o pensar, o agir e suas manifestações.
Ao interrogar-se o escritor se vê diante do que chama seu verdadeiro ato de fé. O que o instrumentaliza para intuir que há algo muito além da própria Filosofia, como diria Shakespeare, há algo muito além do céu e da terra. Tal ato comparece simbolizado na assinatura da própria obra.
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