O escuro labirinto da crise Especialista em terapia cognitiva diz que a formação de pessoas "produtivas e saudáveis" exige a opção pela transparência, a aceitação da democracia da informação e de uma rotina ética. E que isso só pode ser obtido com a ajuda da tecnologia
Por Roberto Lopes Fotos: Fabio Hurpia
Ao contrário do que se poderia pensar, equações matemáticas e figuras geométricas são invocadas, há séculos, para explicar a alma humana. Em The Assayer, seu festejado livro de outubro de 1623, o físico, matemático, astrônomo e filósofo Galileu Galilei (1564-1642) enunciou:
"A Filosofia está escrita neste grande livro - quero dizer o universo - que fica permanentemente aberto à nossa contemplação, mas não pode ser entendido a menos que alguém primeiro aprenda a compreender a linguagem e a interpretar os caracteres em que está escrito. [Este livro] É escrito na linguagem da matemática e seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível compreender uma única palavra dele; sem isso, é uma caminhada em um labirinto escuro".
Trezentos e oitenta e seis anos depois dessa advertência, a depressão econômica global lançou os principais executivos em um novo labirinto escuro. O crédito escasseou, importantes instituições financeiras foram empurradas ao limiar de suas forças, montadoras estão de joelhos e a necessidade de cortar custos produz desempregados mesmo entre os profissionais capacitados - acarretando uma onda de dramas pessoais.
O psicanalista e consultor de empresas José Augusto de Moraes, um paulista de Bauru com formação econômica nos Estados Unidos, recorre às modernas ferramentas de gestão, estruturadas sobre softwares sofisticados - evolução direta dos modelos da Álgebra e da Geometria de Galileu (nome, hoje, de uma das principais indústrias de equipamentos eletrônicos da Itália) -, para garantir: somente a tecnologia, com a sua propriedade de gerar transparência e permitir a prevalência da ética, pode aliviar gestores e líderes empresariais da angústia a que a crise os submete.
"Parece incrível", observa Moraes, "mas estamos de volta aos axiomas centrais de Nietzsche que, na segunda metade do século XIX, alertou sobre a necessidade de o homem conviver com a incerteza e para o fato de que a verdade é devastadora". Formado na Escola Brasileira de Psicanálise, José Augusto de Moraes se especializou em terapia cognitiva para modelagem, coaching e mentoring de executivos.
Graduado em Finanças pela Bolsa de Valores de Nova York, e em Administração de Empresas com ênfase em Psicologia (aculturamento e modernização de empresas com base no conceito de Qualidade Total) pelo Success Motivation Institute, de Waco, Texas (EUA), ele é autor de diversos best sellers dirigidos aos gestores de organizações, como A coragem de mudar (Ed. Record, Rio, 1995), que já superou a marca dos 100 mil exemplares.
Professor convidado do MBA da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, Moraes preside o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Empresarial e tem rotina intensíssima, balizada por uma carregada agenda de palestras e por contratos de assessoramento pessoal e profissional a líderes empresariais. A seguir, a entrevista exclusiva concedida por Moraes à Psique Ciência & Vida, nas dependências do Hotel Renaissance, em São Paulo
"A tecnologia não tem al ma, não é corrrruptível e, dessa maneira , é o único mecanismo capa apaz de resgatar a ética"
Psique - Que tipo de pessoa resistirá melhor a este momento de incerteza sobre o que fazemos e o futuro que nos aguarda?
Moraes - Pessoas produtivas, no plano profissional, e saudáveis, no plano pessoal. Isso pode parecer simples de se alcançar, mas não é. Há gestores de resultados expressivos no ambiente de trabalho que não são seres saudáveis, nem em termos mentais nem sob o aspecto orgânico. O executivo estressado é, sem dúvida, um executivo despreparado. E há pessoas que rotularíamos comumente como "de bem com a vida", mas que não conseguem produzir nada de importante.
Psique - A Segunda Guerra Mundial exerceu influência sobre a introdução do contexto ambiental na Psicologia?
Moraes - Depois da Segunda Guerra Mundial, a teoria da Gestalt deu uma leitura diferente à questão do ambiente, apesar de ainda estar no bojo da Psicologia social. Enfocou o problema do espaço, da métrica e da geometrização. Por analogia, introduziu o conceito de campo da física para explicar as condutas e as formas de desenvolvimento do comportamento social. Nesse período, o psicólogo alemão Kurt Lewin fez uma proposta de abordagem, que chamou de "pesquisação". Sua tese é a seguinte: se não é possível fazer Ciência sem experimento, então é preciso fazer da vida social um laboratório. Só que a intervenção que deveria ser estudada, segundo ele, que se interessava principalmente pelo comportamento político, com relação aos problemas do autoritarismo e formação dos núcleos e influências das lideranças democráticas nas dinâmicas dos grupos -, teria como princípio a legitimidade ética.
Psique - Como o chão fugiu tão repentinamente aos executivos de hoje? Há vários deles em sérias dificuldades para lidar não apenas com o impacto da crise nos negócios, mas também com outras consequências desse cenário. Muitos se deprimem por causa dos cortes de pessoal que são obrigados a fazer...
Moraes - É preciso entender o quadro dentro de um contexto mais amplo, o da grande revolução que aconteceu. Antigamente o gestor tinha um tipo de vida mais adequado à sua existência como ser humano: ele almoçava e jantava em casa, tinha tempo para a família e para o lazer. Na empresa mantinha as portas fechadas, sem ter muita necessidade de falar com as pessoas. Ou, em palavras mais claras, ele podia se dar ao luxo de errar com total tranquilidade. O ícone dessa geração foi Henry Ford, que uma vez disse: "pintem o automóvel da cor que vocês quiserem, desde que seja preto". Era o modelo mental e teimoso da Era Industrial.
Mas então veio a Tecnologia da Informação, que derrubou as portas e até as paredes dos gabinetes dos executivos. Ela não trouxe só a velocidade da informação, trouxe também a velocidade dos eventos. O líder se viu cercado por milhões de informações e, o que é pior, despreparado para manipular em seu benefício, esse fluxo gerado pela tecnologia. Acredite: há gestores que, até hoje, desprezam o uso do MSN. Alguns pelo simples fato de que não sabem usá-lo. Dessa forma, um executivo passa a gerenciar o seu negócio com base em uma intuição cega. Ora, é fácil entender que isso lhe dá uma sensação de impotência
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >> |