Equilíbrio para a derrota e para a vitória Presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, condena a falta de departamentos de Psicologia vinculados aos clubes e analisa como o preparo emocional ajudaria na carreira e na vida pessoal dos atletas
Por Daniela Lessa Fotos: Fábio Hurpia
Anos de treinamento, de luta, de busca pela melhor estratégia tática e... a derrota. Triste, mas foi o que aconteceu com a seleção brasileira, uma das favoritas na Copa da África do Sul. Uma Copa onde tudo foi atípico, o cobiçado troféu de melhor equipe de futebol do mundo ficou para a Espanha, país que jamais havia ganho um Campeonato Mundial. Os espanhóis receberam, ainda, o prêmio Fair play (jogo limpo em inglês), concedido pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), por sua seleção ter sido a mais disciplinada de toda a competição. E isso fez diferença. Especialistas em futebol costumam analisar apenas a qualidade técnica dos jogadores e a estratégia tática do técnico espanhol Vicente Del Bosque, mas para o psicólogo do esporte João Ricardo Cozac, há mais um segredo na vitória espanhola e na de qualquer equipe esportiva: equilíbrio emocional.
Com livros publicados e experiência de 18 anos como psicólogo na área esportiva, inclusive em grandes clubes de futebol brasileiros, Cozac aponta a instabilidade emocional da equipe do Brasil como fator decisivo para sua eliminação. Ele caracteriza o apoio psicológico aos atletas em competições da magnitude de uma Copa do Mundo como essencial e defende a criação de departamentos de Psicologia vinculados aos clubes para atender os jogadores permanentemente, principalmente nos momentos de maior turbulência em decorrência da fama.
Nessa entrevista à Psique Ciência & Vida, Cozac, que atende atletas e equipes de várias modalidades esportivas e é presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, também analisa a tendência de muitos jogadores de futebol em sucumbirem a uma vida de excessos e explica o mecanismo psíquico que faz alguns torcedores cometerem atos de violência em nome do seu time do coração. O psicólogo lembra, ainda, que o Brasil precisa preparar seus atletas fisica, tecnica e psiquicamente para a Copa de 2014 e para as Olimpíadas de 2016.
Psique: O Brasil perdeu no jogo contra a Holanda. Para você, um dos fatores da derrota foi a falta de um preparo psicológico dos jogadores? Em que momento esse despreparo ficou claro? O que faltou?
Cozac: O despreparo psicológico e emocional ficou claro desde o momento em que a seleção chegou na África. Na partida contra a Holanda, especificamente, o comportamento coletivo demonstrou falta de concentração, altos níveis de ansiedade, profunda impaciência e baixa capacidade de comunicação dentro de campo. Alguns atletas, como Robinho, Felipe Melo e Kaká, estavam visivelmente abalados emocionalmente e certamente esse desequilíbrio contagiou os outros atletas, que antes do jogo já estavam tensos e propensos à perda da tranquilidade. A queda da performance individual e coletiva foi apenas uma consequência desses fatores, assim como a eliminação da Copa.
Psique: De uma maneira geral, como a Psicologia do Esporte pode auxiliar equipes durante campeonatos e porque isso é importante? Há um caso para exemplificar?
Cozac: O treinamento esportivo deve obedecer a um triângulo onde um vértice é a parte física; outro, a técnica e tática; e a base do triângulo é o aspecto emocional e psicológico. De nada adiantam corpos bem preparados e treinados se a base emocional e mental não for treinada com o mesmo rigor. Especialmente num torneio como a Copa do Mundo, em que há muita pressão por resultados e expectativas de um País inteiro. Os atletas necessitam que essa base esteja ainda mais fortalecida. Nessa Copa, houve o exemplo da seleção norte-americana, que foi prejudicada duas vezes por erros crassos de arbitragens e os jogadores se mantiveram concentrados e equilibrados até o final das partidas demonstrando raça, força de vontade e de superação. Eles não caíram nas armadilhas que as emoções poderiam ter provocado naqueles jogos. Vale ressaltar que a seleção dos Estados Unidos conta com um departamento de Psicologia desde as categorias de base até a seleção principal.
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