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Dossiê
Cérebro, mente e experiências transcendentais
A acurácia de vários relatos sugere que seria possível a experiência de uma realidade transcendente, na qual o funcionamento - da percepção, da cognição, da emoção e da identidade - acontece independentemente do cérebro

 

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A última década testemunhou um interesse crescente na compreensão dos mecanismos cerebrais que medeiam experiências transcendentais, caracterizadas por estados alterados ou expandidos de consciência. Envolvidas numa dimensão fundamental da existência humana são observadas em todas as culturas, e frequentemente relatadas em tradições religiosas e espirituais. De acordo com o filósofo Walter Stace, experiências místicas envolvem a vivência integrativa com o Todo em unidade, o Um completo sem fragmentos sensoriais ou racionais dispersos. Stace propõe que os principais aspectos das experiências místicas são: (1) o desaparecimento de todos os objetos mentais da consciência ordinária e a emergência de uma consciência pura ou unitária; (2) um sentido de objetividade ou realidade; (3) sentimentos de paz, leveza e alegria; (4) a sensação de ter encontrado o sagrado ou divino (algumas vezes identificado como "Deus") e (5) a transcendência do espaço e do tempo.

As experiências transcendentais podem ser provocadas pela ingestão de medicamentos que alteram a mente, substâncias naturais com impacto neuroquímico, práticas xamânicas, meditação, hipnose, e experiências de quase morte (EQM). São também decorrentes de práticas religiosas/espirituais regulares e, além disso, podem ocorrer sem nenhuma razão aparente. Tais experiências, muitas vezes, levam a profundas mudanças dos sistemas de crenças, da visão de mundo e transformam atitudes e comportamentos diários, assim como as relações interpessoais e a autopercepção da identidade.

Microestímulos elétricos

Michael Persinger, neurocientista da Universidade Laurentian, especulou que as experiências transcendentais são evocadas por microestímulos elétricos nas estruturas do lobo temporal. Persinger e seus colegas desenvolveram um capacete que emite fracos campos eletromagnéticos nessa região, e afirmou que um grande número de participantes relataram uma presença espiritual próxima a eles. Pehr Granqvist e colegas da Universidade de Uppsala, com o mesmo equipamento, testaram estudantes universitários, alguns dos quais foram expostos a campos eletromagnéticos no lobo temporal e outros não. Dos únicos três participantes que relataram fortes experiências espirituais, dois eram membros do grupo controle (ou seja, eles não foram expostos a estes campos). Esta tentativa de replicação sugere que a sugestão psicológica pode ser a melhor explicação para os resultados de Persinger.

Estudos de neuroimagem funcional também investigaram indivíduos com experiências transcendentais. Andrew Newberg e colegas utilizaram o método SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography), para avaliar o fluxo sanguíneo cerebral de freiras franciscanas, enquanto realizavam uma "oração guiada" para abertura da conexão com Deus. O estudo mostrou o decréscimo significativo da atividade no lobo parietal, envolvido na orientação espacial e temporal. Os autores propuseram que essa mudança estava relacionada com um sentido modificado do espaço e do tempo experimentado pelas freiras durante a oração.

As experiências transcendentais podem ser provocadas pela ingestão de medicamentos que alteram a mente, substâncias naturais com impacto neuroquímico, ou pelas práticas xamânicas, de meditação, hipnose, e experiências de quase morte (EQM)

Recentemente, utilizamos a ressonância magnética funcional (fMRI) e a eletroencefalografia (EEG), para mensurar a atividade cerebral durante um estado místico em 15 freiras carmelitas. Experimentalmente, as freiras sentiram a presença de Deus, seu amor incondicional e infinito, assim como plenitude e paz. Os resultados mostraram que várias regiões e sistemas cerebrais mediaram os diferentes aspectos da experiência mística. Esta conclusão não foi uma surpresa, dado que estas experiências são complexas e multidimensionais, isto é, implicam em mudanças na percepção (como a imagem mental visual), na cognição (por exemplo, as representações do Eu), e na emoção (a paz, alegria e amor incondicional). Quanto ao estudo de EEG, os resultados indicaram que experiências místicas estiveram associadas a mudanças neuroelétricas relativas a várias áreas corticais em ambos os hemisférios. Portanto, a teoria sobre "o ponto de Deus" - postulava que um ponto no cérebro seria responsável pela criação da experiência com o divino - foi derrubada com os estudos recentes em neuroimagem. Vale lembrar que, elucidar os circuitos neurais envolvidos nas experiências subjetivas como a prece, o contato com Deus ou a vivência mística não diminui e tampouco deprecia seus significados e valores.

Preservação da lucidez

Nos últimos anos, vários estudos independentes levantaram a possibilidade de testar a hipótese de a consciência existir a despeito do funcionamento do cérebro investigando a mente humana durante a parada cardíaca. Após a parada cardíaca, a pressão arterial média torna-se imensurável e os sinais de sinapses elétricas próximas ao escalpo, indicadoras da atividade neural, são nulos. A perda de reflexos e funções do tronco cerebral, que ativa as áreas corticais através do tálamo também são observadas nesse estado crítico. Alguns pacientes que chegaram ao pronto socorro com parada cardíaca e apresentaram pensamentos lúcidos bem estruturados, processos cognitivos de raciocínio e formação de memória, assim como a preservação da consciência durante a parada, chamaram a atenção de vários investigadores. Entre eles, Sam Parnia e Pin Van Lommel mostraram que os conteúdos experimentados variam entre imagens de luzes e túneis brilhantes. Além disso, os procedimentos do staff médico relatados pelos pacientes durante a parada cardíaca foram verificados corretamente. Os autores dessa linha de pesquisa postulam que a preservação da lucidez, de processos cognitivos de raciocínio e formação de memórias, bem como a capacidade de alguns indivíduos de recordarem episódios pormenorizados é um paradoxo científico. Isto é: nas condições neurofisiológicas durante a parada cardíaca seria esperada a ausência da manifestação consciente e de processos cognitivos complexos.

 

 

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