Dossiê Investigações de fenômenos do problema mente-corpo Os interessados na Psicologia e na Psiquiatria não devem negligenciar os médiuns em seus estudos, já que a mediunidade foi usada para defender ideias sobre a mente subconsciente, a dissociação e a psicopatologia
Todos os que estão familiarizados com as histórias da Psicologia e da Psiquiatria reconhecem a importância de ampla variedade de fenômenos específicos e condições para o desenvolvimento de conceitos de mente e saúde mental. Tal foi o caso, durante o século XIX, da histeria, da dupla personalidade, da hipnose e da mediunidade. Estes fenômenos influenciaram a Psicologia e a Psiquiatria ao apresentarem aos pesquisadores grande variedade de possibilidades teóricas. Por exemplo, a natureza da hipnose foi discutida pelo influente neurologista francês Jean-Martin Charcot (1825-1893), assim como pelas escolas francesas rivais de Salpêtrière e Nancy.
Os fenômenos mediúnicos, tais como os transes e as manifestações verbais ou escritas atribuídos aos espíritos dos mortos, contribuíram para o desenvolvimento de conceitos como o de mente subconsciente, processos de dissociação e concepções teóricas relacionadas à psicopatologia durante os séculos XIX e XX.
Em 1854, o pedagogo francês Hippolite Leon Denizard Rivail, acadêmico que dizia não acreditar na comunicação com os espíritos, foi convidado a colher relatos das ocorrências em vários centros espíritas espalhados pela Europa e Estados Unidos e, ao realizar a pesquisa, Rivail passou a acreditar na mediunidade e publicou, em 1857, o Livro dos Espíritos.
A partir da década de 1870, diferentes edições do livro De L'Intelligence, do crítico, filósofo e historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893), incluíram discussões da mediunidade como sinalizadora de níveis ocultos da mente. Taine continuou a afirmar, na edição de 1892, que as manifestações dos espíritos mostravam "a coexistência, no mesmo instante, no mesmo indivíduo, de dois pensamentos, duas vontades, duas diferentes ações", uma consciente e outra não consciente que, consequentemente, era "atribuída a seres invisíveis".
O médico e fisiologista inglês William B. Carpenter (1813-1885) discutiu o conceito de cerebração inconsciente em seu livro Principles of Mental Physiology (1874), no qual ele assume que as mesas redondas e outros fenômenos mediúnicos seriam o resultado de ações reflexas inconscientes que simulariam a inteligência mesmo sem a autoconsciência.
O inglês Frederic W. H. Myers (1843-1901), estudioso de temas clássicos e pesquisador psíquico, postulou a existência de um subconsciente mais inteligente e pessoal que fisiológico em um modelo que incluía os fenômenos parapsicológicos, tendo investigado a veracidade de algumas mensagens mediúnicas. A Sra. Newnham parecia mostrar a transmissão de pensamento de seu esposo falecido, o Reverendo Newnham. Apesar de Myers ter se convencido de que os espíritos poderiam se comunicar por meio dos médiuns, correlacionava esse processo à mente subliminar. Ao escrever seu conhecido livro Human Personality and Its Survival of Bodily Death, referiu-se à médium Leonor Piper como um caso em que a mente subliminar era usada pelos espíritos desencarnados para se comunicarem. Myers defendeu que as expressões vocais pronunciadas durante o transe "constituem uma de muitas classes de fenômenos que ocorrem em sujeitos saudáveis sem invadirem seus estados de consciência normais ou formarem parte da cadeia de memória habitual".
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