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TRANSTORNO PÓS-TRAUMÁTICO
Impacto da psicoterapia no cérebro
Há diferenças entre como as pessoas traumatizadas e não traumatizadas processam e categorizam as suas experiências?

Por Julio Peres

SHUTTERSTOCK

Em contraponto ao que o filósofo Friedrich Nietzsche afirmou, "o que não mata, fortalece", o trauma, quando não tratado, pode adoecer severamente grande número de pessoas, em vez de fortalecê-las. Há uma relação significativa entre trauma psicológico e o desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que contempla o aparecimento de três grupos de sintomas: revivescência do trauma (memórias traumáticas, pesadelos); evitação/entorpecimento (distância afetiva, anestesia emocional) e hiperestimulação autonômica (estado de alerta, irritabilidade, insônia). Na população em geral, a prevalência de eventos traumáticos pode alcançar 90% (perdas de entes queridos, acidentes, hospitalizações, violências, etc.). A prevalência do TEPT é em torno de 8%, enquanto o TEPT parcial (TEPTp) pode chegar a aproximadamente 30%.

PARA SABER MAIS

Quando o trauma fortalece?

A Psicoterapia tem ajudado muitas pessoas traumatizadas a construírem caminhos de superação, que ocorrem quando uma aliança de aprendizado com o sofrimento é construída, favorecendo benefícios adicionais à qualidade de vida anterior à ocor rência do trauma. Os conhecimentos adquiridos nesse processo não são restritos ao momento e beneficiarão também outros domínios da vida. Assim, o sofrimento traumático pode ser de fato apenas parte de uma história de superação. O fortalecimento/crescimento pós-trauma das pessoas que se submeteram à Psicoterapia envolve geralmente cinco aprendizados:

  • Abertura para novas experiências, interesses e objetivos de vida; Apreciação e valorização da vida;
  • Melhor relação familiar e interpessoal permeada por gratidão, bondade e amor;
  • Desenvolvimento ou resgate da religiosidade/ espiritualidade no dia a dia; e
  • Descoberta de força, coragem e perseverança para superação de adversidades.
A superação de adversidades importantes e a construção do bem-estar consistente se relacionam também com o fortalecimento do caráter e o desenvolvimento das virtudes (coragem, justiça, temperança, sabedoria, paciência, amor e esperança).

O impacto do crime tem se tornado um problema de saúde pública, particularmente nas áreas urbanas, e é agora uma das mais frequentes causas de morte na população em diversos países. A incidência de eventos estressores ligados à violência urbana é crescente. Atualmente, as principais ocorrências potencialmente traumáticas notificadas nas capitais brasileiras são: tentativa de homicídio, lesão corporal, estupro, atentado violento ao pudor, sequestro, roubo e furto.

Nas duas últimas décadas, centenas de estudos mostraram que intensas e esmagadoras experiências podem disparar diferentes respostas, enfraquecendo o conceito de uma "reação universal ao trauma". A caracterização de um evento como traumático também depende do processamento perceptual de cada indivíduo. Conforme o dramaturgo e estudioso da religião John Milton nos ensina, a mente é ágil e em si "pode fazer do céu um inferno e do inferno um céu", e, por isso, precisa de orientação para que esta agilidade esteja a favor do bem-estar. É o que também observamos nos recentes achados neurocientíficos: as memórias carregadas de emoção não são estáticas e lembrar compreende a reconstrução de informações coerentes por meio de fragmentos disponíveis de modo que o conjunto faça sentido. Assim, o passado é flexível e modifica-se com novas interpretações das recordações e reexplicações do que aconteceu. A integração dos traços sensoriais das memórias traumáticas em narrativas terapêuticas estruturadas é um dos principais desafios para as Psicoterapias aplicadas às vítimas de trauma e os indivíduos com TEPTp exigem o mesmo nível de cuidados terapêuticos.

Julio Peres é psicólogo clínico e doutor em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Pós-doutorado em Radiologia Clínica/Diagnóstico de Imagem pela Unifesp. Pesquisador do Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (Proser) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo e professor titular em Psicotraumatologia Clínica no Hospital Pérola Byington. Site: www.julioperes.com.br

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