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Introdução Religião por THAÍS BRITO
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o culto à doutrina, da entrega à disciplina, a religião representa o imaginário social, ao mesmo tempo que fala da capacidade humana de idealizar, de representar e de pensar a sociedade. Por ser agregadora, a religião denota um lugar privilegiado para significar e conduzir as mais diversas práticas coletivas. Tangencia a experiência humana, por isso fala do encontro entre os distintos contextos sociais, da realidade individual e da experiência transcendental. Manifesta-se na orientação do cotidiano, regulando-o. Constitui- se em grupos, definindo ritos, cerimônias, normas, modelos e hierarquizações. Envolve o real, o factível, o telúrico. Mas não somente, apesar de intrínseca ao cotidiano, dialoga com situações que, talvez, escapem ao controle da domesticação moderna, como o transe e a possessão. Permeia o mundo moderno, transcende a lógica da produção e do acúmulo capitalista. É capaz de confrontar os modelos da racionalidade e da utilidade, fazendo possível o reencantamento da experiência humana, para além da "jaula de ferro".
A proposta deste Especial é pensar, lado a lado, a sociedade brasileira e as distintas religiões que a compõem. Cientes da incompletude, afinal, mapear essa diversidade de modo integral é algo que escapa a esta proposta, interessa, aqui, refletir sobre a multiplicidade possível dos hábitos religiosos que nos formam. Para compor este Dossiê sobre Religião, foram convidados acadêmicos, cuja produção intelectual é marcada por aprofundamento teórico, inovação e criatividade para análise dos temas. São sociólogos, antropólogos, literatos, teólogos, enfim, um grupo heterogêneo que não vê a religião como um objeto de pesquisa distanciado.
É um prazer contar com Emerson Giumbelli para este especial. O autor tem uma trajetória sólida e é uma referência para os estudos sobre religião. O artigo aqui apresentado conta sobre a presença do espiritismo na sociedade brasileira, destaca algumas características, como a ênfase nas leituras e no aprofundamento da filosofia religiosa e de suas práticas.
Em tempos de debates sobre povos indígenas, José Glebson Vieira constrói um olhar interessante, com base na sua extensa etnografia sobre o povo Potiguara, da Baía da Traição (PB). O artigo narra o encontro da religiosidade indígena potiguara com a religiosidade católica em meio à festa. Ritual, religião e política estão entrelaçados na articulação das experiências, trazendo, ainda, uma reflexão sobre as ambigüidades.
"Quem elimina a religião elimina a todo e qualquer fundamento da sociedade humana."
Platão |
Carlos Caldas, em seu Profano Transcendental, apresenta a literatura e sua relação com o sagrado. Mais do que, especificamente, a literatura dos textos sagrados, como a Bíblia e o Corão, Caldas busca o sagrado nos textos que, em princípio, são profanos. Divina comédia, Moby Dick, O senhor dos anéis, Vidas secas, entre outros, que revelam a poesia na busca do encontro com o Sagrado.
O artigo de Francyrose Campos Barbosa denota um conhecimento profundo e poético da religião muçulmana. O resultado é fruto de uma pesquisa profunda que presenteia o leitor com uma religião da entrega, da experiência e de um contínuo (re)fazerse diante da fé, fundada em pilares que sustentam aqueles que os seguem.
Emerson Sena reflete sobre a educação e o debate em prol do ensino religioso no Brasil atual. Apresenta as complexas relações entre a política e a religião. Denota um debate múltiplo e polissêmico que, inevitavelmente, traz posturas polêmicas. É um convite à reflexão sobre a educação.
A Igreja Católica de Eduardo Gabriel é dinâmica. São espaços novos, repletos de jovens, de músicas e de raves sacras. O objetivo é um: lançarse na busca do encontro com Deus, a partir das várias possibilidades atuais e com uma alegria que é contagiante. Sulivan Charles Barros traz a umbanda como uma religião brasileira. De acordo com a análise, o "espaço sagrado do terreiro" atualiza "fragmentos de uma história", em que personagens desprivilegiados da sociedade brasileira passam à categoria de deuses poderosos, capazes de resolver problemas de ordens várias, representando as contradições da sociedade brasileira e as "alternativas de resistência étnica e cultural".
Assim, é possível notar que os espaços de culto, bem como suas formas, podem, em algumas circunstâncias, até ser novos, mas os temas que cercam a Religião são bem antigos, e o interesse se amplia ao pensarmos pelo olhar da cultura brasileira. E, para deixar o debate ainda mais interessante, veja o artigo exclusivo de Gedeon Alencar no site de Sociologia Ciência & Vida, sobre o filme de Dias Gomes, O pagador de promessas. |
Thaís Brito é bacharel em Ciências Sociais pela UNESP, mestre em Antropologia pela PUC-SP, doutoranda em Antropologia Social pela USP, professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie, professora dos cursos de pós-graduação, lato sensu, para o Senai/SP, colaboradora editorial da revista Cadernos de Campo e colunista da revista eletrônica Pronto!
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