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Fez Diferença
O "Pensamento em Ação" de Celso Furtado
Professor, escritor, ensaísta, teórico, membro de agências nacionais e internacionais e ministro de Estado, Celso Furtado deixou sua marca na história da sociologia e Economia brasileiras
por Rodrigo Estramanho de Almeida

LEANDRO VALQUER

No dia 20 de novembro de 2004, falecia no Rio de Janeiro o economista Celso Furtado. Economista porque era mesmo a sua formação, mas talvez o mais correto seja registrar que foi um intelectual no sentido amplo do termo. Homem de imensa capacidade de trabalho, Furtado foi professor, escritor, ensaísta, teórico, membro de importantes agências internacionais e nacionais, ministro de Estado e intelectual público de rara envergadura.

O paraibano, nascido em julho de 1920 na pequena cidade sertaneja de Pombal, pode ser colocado ao lado daqueles pensadores que não só se ocuparam em refletir sobre os problemas da nação, mas tiveram virtude para intervir. A essa galeria pertencem poucas figuras, como as de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), Joaquim Nabuco (1849-1910) e Darcy Ribeiro (1922-1997). Cada qual em sua época, dedicaram-se não só a pensar e ensaiar os destinos do país, mas também participaram ativamente da vida política, criando uma ponte entre o pensar e o fazer.

Nessa galeria de poucos ilustres, Celso Furtado tem lugar especial. Suas ideias e seus feitos chegam até os nossos dias com a força que só as teorias impregnadas de lucidez conseguem alcançar em magnitude.

Além disso, dentre os diversos itens de seu legado, um o coloca em outra sessão especial da história das ideias no Brasil. Ao lado de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Gilberto Freyre (1900-1987), Caio Prado Júnior (1907-1990), Raimundo Faoro (1925-2003) e também Darcy Ribeiro (1922-1997), Celso Furtado ocupa cadeira na primeira fila dos assim chamados "ensaístas de formação". É de 1959 o seu livro História Econômica do Brasil, que, com centenas de edições pelo mundo afora, se tornou um clássico do pensamento econômico e social brasileiros.

Dentre muitas questões, uma ocupou com centralidade a obra furtadiana: como um país feito o Brasil, periférico, subdesenvolvido e com profundos problemas estruturais, pode vencer os problemas típicos que o capitalismo impõe às nações do sul? A resposta: com criatividade.

As tarefas que, no entanto, se impõem à criatividade para os pensadores latinoamericanos não são das mais simples. Certa vez, no Jornal Internacional de Ciências da Unesco de 1973, Celso registrou, em poucas linhas, que o "intelectual nos nossos países subdesenvolvidos (...) reúne em si noventa por cento de malabarista e dez por cento de santo" (FURTADO, 1983, p. 41). A sentença, que é uma espécie de "chiste-tese", demonstra muito bem como Furtado enxergava o papel dos intelectuais ao sul do equador. Ele, pelo conjunto da obra e das ações, decerto conseguiu reunir esses percentuais.

 

Entre muitas questões, uma ocupou com centralidade a obra furtadiana: como um país feito o Brasil, periférico, subdesenvolvido e com profundos problemas estruturais pode vencer os problemas típicos que o capitalismo impõe às nações do sul? A resposta: com criatividade

 

TRAJETÓRIA

Os estudos de Celso Furtado iniciaram em 1932 no Liceu Paraibano e também no Ginásio de Pernambuco no Recife. Por força da época, ainda nos estudos ginasiais, o futuro economista conheceu os pressupostos básicos do positivismo. Adviria daí, segundo o próprio, o seu fascínio, ainda em tenra idade, pela ideia de progresso e pelo conhecimento científico.

Em 1936, iniciou a carreira profissional, lecionando língua portuguesa e geografia e dirigindo cursos noturnos em escolas públicas de Pernambuco até transferir-se, em 1939, para a então capital do Brasil, Rio de Janeiro, onde ingressaria no curso de Direito da Faculdade Nacional.

Na capital, Celso Furtado tentou a carreira de jornalista. Entre 1940 e 1943, trabalhou na secretaria de redação da Revista da Semana fazendo reportagens e críticas musicais. No importante jornal Correio da Manhã, ocupou o cargo de revisor de textos.

 

São muitos os livros de Celso Furtado dedicados à compreensão dos problemas latino-americanos, sempre carregados de proposições e estratégias que visam entender e superar as desigualdades do Brasil e da América Latina

 

A década de 1940 foi, pois, a das mais importantes para a formação intelectual de Celso Furtado. No curso de direito da Universidade do Brasil, o autor entraria em contato com os começos das Ciências Sociais no país, recentemente introduzidas, à época, nos cursos superiores. Tal como muitos jovens coevos, foi buscar na formação em Direito a porta de entrada para a carreira pública. Esperava ocupar um dos muitos cargos técnicos que, desde a revolução de 1930, se reproduziam às centenas na nova burocracia do Estado varguista. Essa busca instrumental do curso propiciou-lhe, no entanto, os primeiros contatos com as obras de autores como Karl Marx (1818-1883) e Karl Mannheim (1893-1947), que seriam fonte de inspiração sociológica para a produção de seus trabalhos ulteriores.

Excertos de Celso Furtado

"(...) numa economia de grandes potencialidades e de baixo grau de desenvolvimento, a última coisa a sacrificar deve ser o ritmo de seu crescimento."
Em Formação econômica do Brasil, 1959

"A acumulação é apenas o vetor que permite, mediante a inovação, introduzir as modificações no sistema de produção e nas estruturas sociais que chamamos de desenvolvimento."
Em Criatividade e dependência na civilização industrial, 1978

"O desenvolvimento econômico, no mundo todo, tende a criar desigualdades. É uma lei universal inerente ao processo de crescimento: a lei da concentração. E dentro de um país de dimensões continentais como o Brasil, de desenvolvimento espontâneo, entregue ao acaso, os imperativos desta lei tendem a criar problemas capazes de acarretar tropeços à própria formação da nacionalidade."
Em A operação Nordeste, 1959

Ao longo da graduação em Direito, as atenções do estudante foram gradativamente voltando-se para o que se tornaria seu foco principal de interesse. No terceiro ano do curso, passa a se concentrar nos estudos de administração e teorias da organização. Seus primeiros trabalhos no campo acadêmico são voltados a essa temática. Em pouco tempo, o foco em teoria da organização converte-se em interesse por questões de planejamento. A planificação, a ideia de que, para se transformar a realidade, é preciso primeiro pensar as condições, os obstáculos e as estratégias para a implantação de processos que visem ao aprimoramento da sociedade, será a pedra de toque do pensamento furtadiano. Assim é que o planejamento passa a ser para Celso Furtado "uma técnica social de importância muito maior, a qual permitiria elevar o nível de racionalidade das decisões que comandam processos sociais, evitando-se que surjam processos cumulativos e não reversíveis em direções indesejáveis" (FURTADO, 1983, p. 34). Fascina-lhe, daí em diante, a tese de que o homem pode, com planejamento, atuar de modo racional sobre a História, corrigindo-lhe o curso. Desse interesse adviriam outras importantes leituras do campo da Sociologia e da Economia, como os escritos de Max Weber (1864- 1920), Ferdinand Tönnies (1855-1936), Georg Simmel (1858-1918) e Joseph Alois Schumpeter (1883-1950).

 

DASP » Criado em 1938, foi um dos mais importantes órgãos de Estado criados na Era Vargas. Responsável pela implantação de um sistema burocrático, o departamento instituiu, no país, o concurso público e o aperfeiçoamento do funcionalismo estatal, entre outras medidas.

 

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