Fez Diferença O "Pensamento em Ação" de Celso Furtado Professor, escritor, ensaísta, teórico, membro de agências nacionais e internacionais e ministro de Estado, Celso Furtado deixou sua marca na história da sociologia e Economia brasileiras por Rodrigo Estramanho de Almeida
No ano de 1943, Furtado prestaria concursos públicos federais e, uma vez aprovado, ingressaria como Assistente de Organização do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) no Rio de Janeiro. Além das tarefas burocráticas do funcionalismo público, escreveria artigos sobre princípios de administração e teoria organizacional na Revista do Serviço Público, órgão de comunicação oficial do DASP.
Em 1944, movido pelos acontecimentos da II Guerra Mundial, o recém-servidor público, após formar-se no bacharelado de Direito, candidata-se e é admitido no curso do Corpo de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro. Nesse mesmo ano, seria convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Celso Furtado combateria na Itália em 1945, contra as tropas alemãs, como aspirante a oficial da FEB.
A originalidade do pensamento de Celso Furtado está em aliar o conhecimento teórico e conceitual dos campos sociológico e econômico ao senso de responsabilidade e planejamento."
No fim do mesmo ano, de volta ao Brasil, o autor, então com 25 anos, iniciaria os esboços de seu primeiro livro. Não seria um ensaio sociológico, nem uma tese de economia: em 1946, é publicado De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária, livro no qual registra suas experiências como militar.
Nota-se que a mistura de produção intelectual e ação é, em Celso Furtado, uma forte marca de sua trajetória, e ainda no ano de 1946 o jovem intelectual seria admitido no doutorado em Economia da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris-Sorbonne. Começa aí a delinear-se o economista suigeneris, doutorado em 1948 com a tese A economia colonial brasileira.
Nessa época, o autor leria em profundidade o autor que será de grande importância em sua formação intelectual: a obra do economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), e graças a ela foi possível para Celso "compreender muito cedo o fenômeno da dependência econômica em sua natureza estrutural" (FURTADO, 1983, p. 37).
Em 1949, a Organização das Nações Unidas (ONU) cria a Comissão de Planejamento Econômico para a América Latina (Cepal), órgão responsável por reunir informações e proposições para os desafios de superação dos problemas econômicos latino-americanos. Ao lado do economista argentino Raúl Prebisch (1901-1986), Celso Furtado, como diretor da divisão de Desenvolvimento, constituiria o "cérebro" da comissão.
Como membro da Cepal, Celso Furtado teria a oportunidade de integrar missões que visitariam diversos países da América Latina. O contato próximo com os problemas da região seria definitivo para moldar o seu pensamento e suas teses sobre o subdesenvolvimento. Assim é que, justamente por força desse amadurecimento, onde a ideia e a ação ganham tino e lugar na história, o autor publica, em 1954, o seu primeiro livro de economia, intitulado A economia brasileira.
A partir daí foram muitos os livros dedicados à compreensão dos problemas latino-americanos, sempre carregados de proposições e estratégias que visam entender e superar as desigualdades do Brasil e da América Latina. É de 1956 Uma economia dependente; de 1958, Perspectivas da economia brasileira; e de 1959, Formação Econômica do Brasil. Neste ponto da trajetória, o até então pequeno conjunto de sua obra já o colocava entre os mais importantes economistas do mundo.
Em 1958, o economista deixa a Cepal para assumir, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek, uma diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Designado pela Presidência da República, Celso Furtado torna-se interventor no Grupo de Trabalho do Desenvolvimento do Nordeste (GTDN). Nessa agência, o intelectual atuará na produção de políticas e estudos que tinham como centro a superação dos problemas da seca nordestina.
Como desdobramento de seus trabalhos à frente da GTDN, Celso assume, em 1960, a direção da recém-criada Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). À frente da agência sediada em Recife, Furtado desenvolveria planos de ação e cooperação para a tentativa de superação dos problemas da seca e do subdesenvolvimento nordestino. Da coleção de ideias surgidas como superintendente da Sudene é que foi produzida, em 1961, uma de suas mais importantes obras, Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. E, em 1962, viriam outras duas: A pré-revolução brasileira e Subdesenvolvimento e Estado democrático.
Em meio à efervescência dos anos 1960 e do prólogo da crise econômica e política que levaria ao golpe militar de 1964, Celso Furtado assume, durante o governo do presidente João Goulart, um cargo de ministro de Estado. À frente do Ministério do Planejamento, desenvolveria o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. O plano não seria bem-sucedido, assim como o governo do presidente Goulart, que, em 31 de março de 1964, é deposto pelas forças do Exército. Celso Furtado, como muitos outros intelectuais e políticos do período, teria os direitos políticos cassados pelo regime militar. Não restaria alternativa a não ser o exílio.
De 1964 a 1978, Celso Furtado dedicou- se, certamente por força das condições, apenas a atividades acadêmicas. Lecionou em diversas universidades norte-americanas e francesas e publicou uma dezena de livros versados em desenvolvimento econômico e problemas latinoamericanos.
Celso Furtado integrou a equipe de elaboração do anteprojeto da nova Constituição na Comissão de Estudos Constitucionais e seria, a partir de 1986, ministro da Cultura do governo José Sarney
Keynes » Foi um dos mais importantes economistas do século XX. Sua influência advém da originalidade de suas ideias, que redefiniram toda a economia moderna. Os pressupostos keynesianos, basicamente, propõem que os Estados adotem políticas econômicas intervencionistas que permitam maior controle do mercado e distribuição de renda.
Cepal » A comissão foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com o objetivo de incentivar a cooperação econômica entre os países latino-americanos. Na Cepal, reuniram-se os mais importantes nomes da economia desenvolvimentista.
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